Quando eu tava na escola, tinha certeza de que todos me achavam estranha, burra ou com alguma doença bizarra – poucos falavam comigo, as meninas não se aproximavam e eu andava basicamente com os meninos feios e fedidos** da classe.
Eu não me importava tanto, porque 1) eu adorava os meninos feios e fedidos da minha classe, que no meu ver eram lindos e cheirosos e roqueiros e donos da banda mais bacana (e menos popular) que aquela escola já teve; 2) eu não queria andar com os engomadinhos, achava que tinha certo charme em andar com o fedidinhos, permitia que eu fosse uma “fedidinha” e era isso o que queria.
Então eu comecei a namorar um fedidinho da turma. Primeira descoberta: não era só eu na escola que achava aquele “fedidinho” lindo. Outra! Mais pessoas começaram a falar comigo e logo a turma dos feios e fedidos já era mais tão vista assim. Não que meu namoro tenha nos tornado popular, mas ele aconteceu no mesmo momento que a banda, que o grêmio e que o jornal criados por nós, feios e fedidos, criamos com os então nerds-que-só-tiram-10.
Isso mesmo. Os nerds-que-só-tiram-10 eram os mais legais fora da nossa turma. Até hoje me pergunto por onde andam, e tenho contatos via twitter e facebook com alguns deles.
Anos depois, o namoro de escola já era, alguns namoros já eram na verdade. Mas alguns feios e fedidos continuam meus bons e velhos amigos (que, espero, não me levem a mal pelo excesso de “feios e fedidos” nesse texto). Então que estamos não tão feios nem tão fedidos assim numa balada no bexiga quando de repente:
- Ei! Você é a N.?
- Hm hm.
- Você não lembra de mim? Do Galileu!
- Putz, desculpa, não lembro…
- Sabia… Você já era metida naquela época…
Metida??? Gente! Eu tinha tanta certeza de que era renegada pelos colegas de escola que acabei ficando com fama de metida? Mas metidos não eram eles? Não eram ELES que não queriam ser meus amigos?
Então lembrei de uma vez que dois dos feios e fedidos foram pegos fumando maconha na escada do colégio, no dia seguinte um deles apareceu de moicano rasta e foi impedido de entrar. Chocados, não só nós, mas também os engomadinhos, os populares, os esportistas, os nerd-que-só-tiram-10, todos protestaram e resolveram que não subiriam pra aula se o feio e fedido moicano rasta não pudesse subir também.
A diretora o chamou. E disse que ele tinha que tomar cuidado com as coisas que ele e que nós (feios e fedidos) fazíamos porque o resto da escola acabava copiando. Ela colocou na gente a responsabilidade por ter outros alunos cabulando aula como a gente, fumando maconha como a gente, respondendo pra professor chato como a gente, namorando no intervalo (e na sala de aula as vezes, confesso) como a gente… Controle-se mulher! E controle sua escola! Não venha pedir pra gente ser diferente porque você não controla suas crianças!
Tudo bem, ele não falou nada disso. Entrou na sala de moicano rasta e rimos o intervalo inteiro com a frase da diretora.
Enfim, tudo isso pra chegar a conclusão de que a gente acaba tendo certa popularidade mesmo que sem querer, mesmo que ao avesso, mesmo que fugindo dela.
Essa história toda veio na minha cabeça porque eu tenho uns vícios bestas de internet e adoro expor algumas coisas por ai. E hoje, ao postar a foto de uma amiga no fotolog, recebi comentários de gente que nem conheço. Fui clicando, clicando, clicando e descobri que várias pessoas completamente desconhecidas acompanham minhas bobeiras.
Isso me trouxe um pouco de medo e um pouco disso ai em cima.
** Quero deixar claro que ninguém fedia literalmente, era uma coisa visual.
